Valton Pessoa,
vice-presidente do Bahia
O Bahia assina nesta quarta-feira, 22, um acordo com a construtora OAS
para ficar com o Fazendão e ainda adquirir a Cidade Tricolor - novo centro de
treinamentos, construído em Dias D'Ávila - pelo valor de R$ 23,6 milhões.
Trata-se de uma revisão do negócio original, realizado por Marcelo Guimarães
Filho, que visava a permuta do antigo CT pelo novo. Além de entregar o Fazendão
como forma de pagamento, o Tricolor arcaria com mais R$ 12 milhões - hoje,
corrigido, esse valor ficaria em torno de R$ 15 milhões.
A renegociação só foi
possível depois que o Bahia alinhou com a prefeitura o recebimento dos
Transcons (Transferência do Direito de Construir) referentes à desapropriação
da antiga sede de praia do clube. A moeda será usada como parte do pagamento e
o restante será parcelado em dez anos. Os detalhes da negociação e o que será
feito a partir de agora foram revelados pelo vice-presidente do clube, Valton
Pessoa, em entrevista exclusiva para o A TARDE.
Qual é a atual situação patrimonial do Bahia? - Não temos nenhum CT e nenhuma propriedade no nome do clube porque o
Fazendão pertence à OAS e a Cidade Tricolor, como o Bahia não pagou os R$ 12
milhões, ainda não foi passada para o nome do clube. Ou seja, por conta dos
acordos que foram feitos em gestões passadas, o Bahia não tem hoje nenhum
título de propriedade.
Por que isso aconteceu? - Na verdade, não houve uma
permuta. O Bahia vendeu o Fazendão por R$ 14 milhões e comprou o novo CT por R$
26 milhões. Restou uma diferença de R$ 12 milhões para ser paga. Além disso, o
terreno em Dias D'Ávila seria pago com 25% dos Transcons que receberia. Ficamos
sem o Fazendão e também sem condições de pagar os R$ 12 milhões para ter o
outro CT. O que nós fizemos foi tentar recuperar isso, refazer esses acordos
para ter os dois. Ao mesmo tempo, tentamos viabilizar o recebimento dos
Transcons, que era algo que também estava emperrado.
Como foi a renegociação? - Entendemos que a situação não era razoável para o Bahia, já que o
clube estava sem patrimônio algum. Decidimos que, se a Cidade Tricolor fosse
adquirida pelo clube, o Fazendão seria devolvido. Assim, fizemos uma cotação do
CT (R$ 23,6 milhões), pagaremos esse valor e vamos ficar com os dois. Arcaremos
com uma parte - 58% (13,6 mi) - em Transcons e o restante (R$ 10 mi) ao longo
de dez anos. Serão dez parcelas anuais de R$ 1 milhão. Esse valor inclui o
terreno. E o Bahia ainda ganha um terreno que dará acesso ao Fazendão direto
pela pista principal de São Cristóvão, o que vai valorizar muito mais o imóvel.
Já que será usado como parte do pagamento, esse
recebimento dos Transcons já está fechado com a prefeitura? - Ainda não, mas está bem adiantado. O que precisamos é definir
apenas a dívida do Bahia com a prefeitura, para que isso seja deduzido do
crédito de Transcons que vamos receber. Até o final do mês chegaremos a um
acordo nesse sentido. Mas esse entendimento com a prefeitura e o com a OAS não
dependem uma da outra. Por isso, vamos assinar logo com a OAS nesta quarta.
E de quanto seria esse valor em Transcons e quanto
seria descontado de dívidas? - O valor pela desapropriação é
de R$ 39 milhões em Transcons. Disso, seria descontada a dívida do Bahia com o
município, algo em torno de R$ 9 ou 12 milhões.
E quanto deve sobrar para o clube, afinal? - Eu acredito que algo em torno de R$ 7 milhões, mas vale lembrar que é
em Transcons, não dinheiro. Ao negociar com o mercado imobiliário, não vai dar
exatamente R$ 7 milhões em moeda corrente. A ideia é tentar esse ano ainda
conseguir a negociação para finalizar o ano sem deixar dívida para a próxima
gestão.
Qual o estágio atual da Cidade Tricolor? - Não está mobiliada ainda e nem equipada, mas está pronta. A OAS vem
fazendo a manutenção durante esse tempo e vai continuar fazendo até março. É um
CT de primeiro mundo. Visitei vários outros centros e esse não deixa a desejar
para nenhum outro no mundo, não.
O que o Bahia pretende fazer com a Cidade Tricolor
e com o Fazendão? - A gente chegou a discutir isso
e houve divergência. O ideal, ao meu ver, seria ficar com o Fazendão para o
profissional e deixar as outras categorias na Cidade Tricolor. Mas é tem
muita coisa para avaliar.
Como um clube com dívidas e problemas financeiros
vai administrar dois CTS? - Como disse, é um desafio do
novo presidente. Mas isso pode ser viabilizado sem problemas por um novo
gestor. Buscar parcerias, convênios, tem aí a lei de incentivo ao esporte que
pode ajudar, tem negociação de naming rights com uma empresa... Pode-se fazer
uma parceria com as prefeituras de Camaçari e de Dias D'Ávila por exemplo, para
ser um centro de esporte e lazer. É um desafio para uma nova gestão.
Por que a construtora aceitou voltar atrás do
acordo? - Tudo na vida pode ser negociado
e renegociado. As coisas mudam, a situação de 2012 não é a mesma de agora, seja
do Bahia ou da empresa. As pessoas mudam, os dirigentes também. Enfim, houve
uma sensibilidade de todo mundo. A empresa entendeu que não adianta fazer
acordo com alguém que não pode cumprir.
Você andou afastado das decisões do Bahia e agora
voltou com essa informação. Estava trabalhando nos bastidores? - Eu saí da administração para focar nesse assunto, porque é um tema
complexo. Imagine que estamos negociando isso desde o ano passado. Eu nunca fui
diretor de futebol, o Bahia sempre teve esse diretor. Eu apenas auxiliava, mas
não dava mais para conciliar as coisas. Além disso, a função do vice-presidente
é apenas substituir o presidente e eu já estava ajudando em mais do que isso.
Mas esse afastamento lhe rendeu várias
críticas... - Às vezes a gente tem que se
sacrificar por um bem maior para o clube. Eu estava esse tempo todo com a
consciência tranquila, estava fazendo muito mais do que estatutariamente era
obrigado, mas sempre por amor pelo clube. As críticas sempre existem, mas o
importante é o trabalho que foi realizado.
As eleições no Bahia são em dezembro. Você vai
concorrer para a presidência? - Eu não tenho interesse na
eleição do Bahia. Eu me disponho a ajudar o clube, mas não quero mais cargo de
diretor. Continuarei ajudando qualquer que seja o presidente. Hoje, tenho um
conhecimento bom do clube, do futebol, do grupo de jogadores, do patrimônio.
Mas não vou concorrer.
Mas a situação já definiu um candidato? - Não. Pelo meu conhecimento, a diretoria atual está preocupada somente
em manter o clube na Primeira Divisão.
Você, Sidônio Palmeira e Fernando Schmidt, os três
homens fortes da atual diretoria, devem apoiar a mesma chapa? - Como disse, eu estou afastado do dia a dia do clube e nós três não
temos nem conversado sobre esse assunto.
Ainda falando sobre a eleição, o clube proibiu
recentemente a associação de novos torcedores. Por que essa decisão? - Foi uma decisão do conselho que a diretoria pôs em prática. É para
evitar que um torcedor oportunista se associe apenas para votar. Também para
evitar que algum interesseiro consiga viabilizar a sua eleição apenas pelo seu
poder financeiro.
Mas isso não fere a política de democracia da atual
gestão? - Acho que a posição do conselho
foi positiva. Logo após as eleições, o torcedor pode voltar a se associar
normalmente. É uma questão de ponto de vista. Eu não participei dessa
discussão, mas compreendo as razões da decisão e também compreendo quem acha
que não é positiva. O propósito é louvável, de evitar que oportunistas se
aproximem do Bahia às vésperas
da eleição, mas respeito quem pensa diferente.
A atual gestão sempre diz que pegou um Bahia em
situação caótica. Que clube vai ser entregue no final do ano? - Espero que um clube na Primeira Divisão. Entregamos um clube campeão
baiano, que recuperou sua credibilidade com funcionários, atletas e
empresários. Um clube com patrimônio, porque sem patrimônio um clube não vai
vingar. Hoje, além do título estadual, o maior prêmio que a diretoria pode
apresentar é a recuperação do Fazendão e a viabilidade de um novo CT. Com isso,
o Bahia passa a ser diferenciado no mercado.
